quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Não Abra A Primeira Gaveta
Não abra a primeira gaveta. Está cheia de coisas perdidas, jogadas, emboladas e desemboláveis. Da última vez que a abri, tive que arcar com as consequências, sendo elas tediosas, difíceis ou aborrecedoras. A primeira gaveta é bem grande, assim como as outras quatro. Nem um pouco padronizada como a segunda, com seus panos de pratos dispostos em três pilhas, cada peça quatro vezes dobrada. Panos de prato do Peru, do Uruguai, Paraguai e também do comércio feirante local. Sua vizinha superior, que aqui numeramos como a primeira gaveta, tem no máximo papéis recicláveis recebidos quando eu trabalhava em um acampamento ecológico. São tantos papéis que todos formaram orelhas pela insuficiência de espaço da gaveta. A primeira gaveta, além de diferente da segunda, também é diferente da terceira. Nesta, estão toalhas de mesas bordadas, tricotadas, costuradas, manufaturadas e industrializadas. As toalhas são tão grandes quanto a própria gaveta, obrigando-me a dobrá-las duplamente ao meio para que, uma sobre a outra, eu poça fechar a gaveta. Há toalhas de todas as cores: vermelho, amarelo, azul, verde, laranjada, roxo, branco, vermelho-sangue, vermelho-morango, vermelho-magenta, amarelo-pastel, amarelo-sol, amarelo-cheguei, azul-claro, azul-escuro, azul-piscina, azul-da-cor-do-mar, verde-limão, verde-oliva, verde-louro, laranjada-pitanga, laranjada-mamão, laranjada-laranja, roxo-bebê, roxo-veludo, roxo-lilás, branco-de-titânico, branco-creme e branco-branco. A primeira gaveta, tem exclusivamente 3 cores, que são as três canetas bic que haviam se enroscado naquele baú-gaveta. Comparando-se finalmente a última gaveta, é a que a primeira gaveta talvez tem mais semelhanças relacionadas, correlacionadas e de alguma maneira ligadas ao um único volume, não para a última gaveta que eram apenas ligações em malha. Quem quiser conhecer a textura de cada tapete contido na última gaveta é obrigado a abaixar, sendo ela a mais baixa, tanto com relação ao piso quanto com relação forro. Desde tapetes persas até tapetes trançados manualmente. Fios. Tantos fios quanto na primeira gaveta. Considerando que a primeira gaveta conserva uma floresta de fios enroscados, entrelaçados e embolados, fones-de-ouvido, carregados e cabos conectores que ali não têm mais nem começo nem fim, a ultima gaveta então possui fios para Deus e mundo. Por isso, eu aconselho: não abra a primeira gaveta. Ter que arrumá-la seria tedioso, difícil e aborrecedor.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Não-sabe-onde
Era noite. Era silêncio. Um silêncio que dentro daquele
carro se tornava o mais alto possível. As luzes da ponte que passava naquele
momento não eram pontos luminosos em altos mastros de ferro, mas somente
borrões chamejados das lâmpadas. Era uma cortina preta com desfocos de ouro
bizantino enfileirados sobre um longo pavimento de asfalto. Àquela hora, poucos
ou quase nenhum carro passava sobre. Tudo indicava que era algo intimamente
ligado a ela, todos os murmúrios e fungados. Seus cabelos curtos, avermelhados
e de caráter rebelde não tiravam a feminilidade de seu rosto, porém a pele
molhada, lacrimejada e cansada sobre o mais perfeito dos pêssegos somente sustentava
a teoria da fraqueza feminina. As lágrimas atuavam profissionalmente como em um
filme dramático. Uma a uma escorriam, escorregavam. E quando pesava todo o derramamento,
suas mãos trêmulas enxugavam-nas, ou tentava o ato. Cena desfocada, sentimento
desfocado, rumo desfocado. Seus óculos arredondados não podiam ver seu destino,
seu ponto de chegada. Seus pensamentos muito menos. Os pensamentos estavam
sendo mutilados pelos barulhos dos tiros que atravessara o peito do homem que
amava. Vida planejada, sonhos traçados e tudo já marcado ao lado dele. Mas a
faca afiada de uma história curta separara-os. Ela só teve tempo de correr para
o fusca azul-desbotado dele e partir logo dali antes que o próximo alvo de bala
fosse o peito já perfurado de uma amante. Partir pra não-sabe-onde. A ponte
passou, o soluço passou, e a escuridão já passava. O espetáculo do sol é que
vinha. Céu azul saturado, azul borrado, azul sonolento. E logo clareando,
clareando, clareando, até que a cicatriz solar se formasse. Ela ainda estava
ali, dentro daquele carro, na mesma posição que passou a madrugada inteira: um
braço apoiado na janela e apoiando a cabeça, com seus dedos acolchoados pelos
cabeços macios, e o outro estendido com o controle do volante. Precisava sair,
parar em algum lugar para pegar um ar. Viu que chegara ao litoral. Estacionou o
fusca, tirou as sandálias e em passos lentos caminhou até final do longo píer.
Sentada, abraçada pelo sol e pelo silêncio fiel, ela ali estava. Não via mais
magia em nada, perdera o apetite e o interesse pela beleza da culinária, não tinha
vontade de fotos, não tinha mais vontade de vontades. Olhos inchados, piscadas
lentas, e agora, tranquilidade. Só isso.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Tortilhas de Limão
Era final da tarde. O menino estirado no sofá já nem prestava atenção no que estava passando na TV, de tanto tédio que sentia. As férias o deixava entediado por afastá-lo dos seus amigos da escola. Enquanto pensava o quanto era ridículo aquele Quiz que a apresentadora dizia como um "desafio", aguardava sua mãe voltar do mercado. Ao ouvir o barulho do carro estacionando, ele abandonou o controle e correu para abrir o portão. Muitas sacolas de compras significam muitas coisas boas pra comer. Ele sempre de autodesafia a carregar muitas sacolas pesadas; chegava morto na cozinha. Começou a examinar rapidamente sacola por sacola. Antes que ele achasse sozinho o que procurava, sua mãe dissera com o pacote de tortilhas na mão: "Achei as suas preferidas: de limão!" Com um sorriso ele recebeu seu prêmio e enquanto aguardava o chá, saboreava suas tortilhas na sala. O gosto único do recheio de limão que fica ainda mais gostoso com o biscoito em que vem sobre, deixava-o feliz da vida. Melhorava seu humor e o satisfazia como poucas pessoas conseguiam. Chá e tortilhas de limão. Para o garoto não podia haver coisa melhor, fazia ele gostar ainda mais desse lado das férias.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Preso na Rua
Era madrugada. Eu o vi em uma esquina. Aquele cachorro bonito, bem cuidado. Talvez pelas suas condições temporárias, todo o carinho se esvaía pelos seus olhos escuros ao me olhar passar. Certamente aquele cão tinha algum lar, e poderia imaginar mil motivos para ele estar na rua. Ele poderia ter fugido ao se deparar com o portão da casa aberta, coisa que qualquer cachorro adora, poderia ter sido mandado embora, por alguém que não era o dono, eu suponho, porque não tinha sinal de maus tratos, pelo contrário, o pelo dele atraía carinho. Se eu visse pelo lado bom, diria que agora ele estava livre, trocou a restrição dos portões pela liberdade marginal das ruas. Mas não. Havia outra condição bem maior, que anulava essa por completo. Naquele momento o cão estava preso no que não era seu lar, preso no que muitas vezes só oferecia mais perigos, preso em sua própria liberdade. Numa intuição mais ousada, agora ele estava exposto ao lixo, que passaria a ser seu alimento, aos cães que o ameaçariam e aos maus tratos que o próprio tempo o causaria. Eu não estava na minha cidade, estava naquele lugar de passagem, como um forasteiro agora bem-aventurado. Pobre cachorro, conto com a sua sorte.
Em memória do cão, em memória do pensamento ligeiro, e deste espaço digital que muitas vezes esqueço que tenho, escrevi.
Em memória do cão, em memória do pensamento ligeiro, e deste espaço digital que muitas vezes esqueço que tenho, escrevi.
domingo, 6 de novembro de 2011
Quando nada mais importa
Quando nada mais importa, descobrimos o valor que damos a
cada coisa, o sentido exato daquela caixa de música ou da lembrança mais remota
da infância, que temia em voltar cada vez mais nítida. Eu, que nem chegara aos
trinta, já sei disso. Agora, aqui, sentado na beira do Canyon, falo sem tremor em minhas palavras. Não teria como saber
disso sem ao menos sair daquela minha rotina medíocre. Eu era um tolo. Um tolo
que tinha problemas. Tinha problemas e nem sabia.
Fazia exame de rotina de seis em seis meses. Era o
recomendável, eu só fazia o recomendável. Escovava os dentes três vezes
ao dia, consumia alimentos lights,
evitava fritura e fazia cooper pela
manhã, essas coisas tipicamente recomendáveis. Eu confesso que não gostava nem um pouco de
acordar cedo para correr pelo bairro, mas era recomendável, então eu fazia e estava tudo bem.
Assistia Star Wars como um adolescente vendo vídeo proibido. Nesse ponto, eu
era ilícito mesmo. E nem ligava, abusava dessa Saga que eu praticamente sabia
todas as falas. Minha
companhia eram meus vizinhos, não por opção, mas por localização. Na faculdade
não havia pessoas normais o suficiente para que eu pudesse me aproximar.
Naquela terça-feira, era o dia do exame de rotina. Já
tinha passado seis meses desde o ultimo exame. Passou rápido. Estacionei
meu carro, entrei e sentei. Eu
não estava nervoso. Estar ali já era um hábito semestral. Além do mais, minha
saúde é exemplar. Eu só faço o recomendável, o que pode me acontecer?
Fui chamado, entrei no consultório. Revi o Doutor, disse que se passou tanto
tempo desde a nossa ultima consulta, aquela coisa toda. Eu sempre falava
aquilo, ele concordava, então era um cumprimento padronizado. A sabatina de exames começou.
Tira a camisa. Inspira. Expira. Pressão. Garganta. Barriga. Tudo OK. Espera,
outro inspira e expira? Estranho. O Doutor voltou ao seu posto, anotou alguns
rabiscos, e disse que quinta o resultado ficaria pronto. Despedidas, carro,
casa.
Cheguei em casa, peguei um Iogurte, escolhi um suspense e
sentei no sofá. Aquela tarde pedia um suspense. Mas o filme nem ganhou minha
atenção. Eu só pensava no que o médico supostamente rabiscou sobre mim na
bancada dele. Poderia ser uma gripe, uma virose, ou apenas ganhei alguns
quilos. Acalmei-me. Era
ridículo pensar naquilo logo após sair do consultório, esperar o exame era a melhor
opção. Quinta chegou, o resultado chegou. A ansiedade me fez encurtar a
história. Cheguei ao
consultório ansioso pelo envelope da clínica. Recebi, rasguei rapidamente a
parte superior, e decifrei. Letras, códigos, nomes complexos. Desvio o olhar
para o fim da folha. Leio seis letras, as piores da minha vida: C-Â-N-C-E-R.
Por acaso, câncer é algo recomendável? Minha mente ainda
se evaporava na tentativa de assimilar tudo o que estava ocorrendo.
Minha situação era a seguinte: Retornara da clínica no qual sempre vou, sabendo
dessa vez que, nos últimos cinco meses um câncer no meu cérebro se desenvolveu de maneira
assombrosa, e minha vida se reduzira a 7 meses. Sete meses. S-E-T-E meses para
viver. Chega de rotina, chega do “recomendável”, chega da monotonia e
inutilidade que transbordavam dentro de um tolo. De um tolo com problemas. Dentro de mim, com câncer.
Procurei uma coisa que não tem nome.
Por sete meses. Já procurei na água de algumas corredeiras, no topo e nas encostas de certas montanhas, nas nuvens de alguns ares, no mato fechado que guarda alguns vales. Já encontrei vezes e vezes – só não encontrei seu
nome. Voltarei à água,
no ar, à terra, voltarei até encontrar. Procurei em mulheres, procurei
na noite, procurei no dinheiro, na traição. Procurei no luxo, na elite e no
champanhe. Encontrei, encontrei até de mais. Mais do que me era permitido,
ultrapassei os limites do meu arbitrário, meu recomendável foi para o espaço.
Hoje de manhã, descansei. Pensei. Pensei nas experiências que passei. Uma vida
em sete meses. Forçada. Pensei em como morreria. Poderia ser hoje,
amanhã, não sei. Pensei em
morrer com o veneno de uma água viva, e doar todos os meus órgãos para
as pessoas, como vi em um filme.
Pensei em morrer de uma forma mais rápida. Poderia ter um enfarte, um derrame,
quem sabe.
Voltei atrás. Voltei ao Canyon, onde meu pai sempre me trazia
quando criança. Eu conheço esse lugar como a palma da minha mão. Tenho
boas lembranças aqui. Parei nesse penhasco, sentei, e desabafei: Quando nada mais importa,
descobrimos o valor que damos a cada coisa, o sentido exato daquela caixa de
música ou da lembrança mais remota da infância, que temia em voltar cada vez
mais nítida. Deitei-me nas lembranças nítidas, porém esqueci que estava sentado
no penhasco, e deitei também com o que me aguardava desde os últimos sete meses.
Acordar nunca foi fácil
Acordar nunca foi fácil, pra
ninguém. Nem para aquele que no dia anterior dormiu cedo, com pretensão de
igualmente cedo, acordar no próximo dia. Deixar as amarras de um bom sonho, o
calor do seu corpo na cama amassada, a sua forma corporal no edredom, não é
fácil. E se não fosse só pelo fato de acordar cedo, naquele dia eu teria de
acordar uma hora mais cedo do que o habitual. Era dia de inscrição das saídas
de final de semana, uma chance em sete dias para sair do forte chamado ESEM.
Abri os olhos com dificuldade, um
dos meus colegas de quarto não havia acordado ainda, coisa atípica para quem é
sempre o primeiro a tomar banho. Evitando tropeçar em algum tênis largado, em
algum chinelo virado ou mochila esquecida, caminhei com cautela até a varanda
para pegar a toalha. O céu ainda estava naquele tom azul escuro de transição.
Nem sinal de um sol. Entrei novamente no quarto, peguei o uniforme do cabide,
sabonete, shampoo e cartão.
Como nos outros dias de
inscrição, eu inaugurara o banheiro, acendendo as luzes apagadas desde ontem à
noite. Banheiro vazio, frio e provavelmente dormindo ainda. Ele não tinha a
necessidade de realizar alguma inscrição para ver outros rostos, outros
lugares. Sonolento, sem reflexo, sem roupa, entro no boxe.
Giro o registro, mas a água não
sai. Lá estava eu, despido, esperando algum resquício da água que passou a
noite toda dentro de um cano sem ser usada, a espera que alguém abrisse o
registro e então ela lavasse a almada criatura. Mas não seria eu a criatura da
vez. Giro o registro o máximo possível, mas caem apenas algumas gotas gélidas.
Minha toalha não estava no lugar onde eu deixei quando entrei no banho, ela não
estava em lugar algum. O silêncio me fez perceber que tinha mais alguém no
banheiro.
Eu não fiz nada. Não respirei, não
xinguei o encanamento, não sai do box, não girei o registro outra vez e nem
perguntei quem era do lado de fora. Só esperei que a água caísse e a pessoa
fosse embora. Mas naquele dia eu não estava com essa sorte toda para que alguma
dessas coisas pudesse acontecer. A pessoa se aproximou ao qual pude ver a sua
silhueta através da porta de vidro fumê. Reconheci então que era aquele que me tirou
os argumentos, como um tolo me deixara, que eu evitei a presença tantas vezes
em poucos dias, só pra que não fosse atingido pelo apego.
Num brusco empurrão, o meu colega
de quarto me acordou, já de banho tomado. Não era dia de inscrição, não era uma
hora mais cedo do habitual, o encanamento não estava sem água, não era ele. Era
eu, dentro do forte, em mais um dia da saga anual.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Poem
Não te preocupa.
Mãe, que saudade tenho de ti
que saudade das pequenas coisas que fazia por mim
que saudade do seu cafuné, do seu bolo
que saudade do seu te amo, do seu consolo
Pai, que saudade que meu velho deixou
não encontrei até agora um abraço forte como teu
não encontrei as palavras que só tu sabia me dizer
não encontrei a segurança que você me dava a todo momento
Irmã, se eu voltar, vai ser por você
contigo deixei meus amores, meus segredos e meus choros
deixei minhas alegrias, minhas manias, minhas lágrimas
deixei carinho, amor, amizade,
ah, e que amizade, que deixou um buraco sem fundo no peito
Mas família, não te preocupa,
aqui encontrei futuro,
aqui encontrei amigos,
aqui encontrei uma página virada,
que escrevo eu mesmo, as linhas que se seguirão.
Abraço - LG
p.s.: Tirando a poeira!
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
A Year of Decisions
Comecei o ano tão bem, como sempre começo todos os anos. Deus era meu rumo. Meus amigos eram meu rumo. Mas felizmente e infelizmente, meus rumos mudaram bastante. Em fevereiro o acampamento foi uma coisa sobrenatural. Presenciei milagres, curas e libertações. Sai de lá, transformado pelo agir de Deus em nós. Mas por mais que eu lutei para a transformação permanecer, não permaneceu por muito tempo. Então as aulas começaram. E meus amigos estavam lá comigo, para desbravar o ano ao meu lado, quatro horas por dia, cinco dia por semanas. Neste fim de ano eu posso afirmar com toda a certeza, que eu os amei em todas as horas, os amei como se fossem minha família, afinal, era quase isso! Alguns não eram os melhores alunos, mas sabiam ser os melhores amigos. Meu apego com eles foi tão forte que hoje, eu sinto as consequências disso.
E a aventura começou. Março chegou e uma nova e única oportunidade se abriu em minha vida. Uma escola, ou melhor, A escola. Era um sonho para qualquer um, uma esperança de um futuro melhor, em outra cidade, com gente de todo o Brasil. Mas eu não saberia ver isso, sem meus amigos do lado. Todos nos interessamos. E agarramos a oportunidade. Era uma coisa fora do comum para nós. Então fizemos, juntos, a pré-inscrição. Eu estava muito feliz, porque sabia que era Deus quem me permitiu isso, era Ele que queria o meu bem. Então eu fui de cabeça, não importava o que acontecesse, Ele estava ao meu lado, e meus amigos estariam comigo. Estudei o melhor possível, me preparei mesmo. Junto de meu amigo, procuramos até aulas extras, porque sabíamos que estavamos concorrendo com gente muito capaz. Confirmamos a incrição, e o dia da prova chegou. Era um domingo de manhã, todos os presentes não tiravam o sorriso do rosto e o frio na barriga. Depois de quatro horas de prova, saio de lá desesperançoso. De que valeu aquele tanto que eu me esforcei me estudando, se na hora não consegui fazer quase nada?! Enfim, seria o que Deus quisesse.
No dia seguinte à prova, o gabarito oficial saiu. Eu pensei: "Ai meu Deus, a hora chegou!". Conferindo de um em um, soube que eu passei na primeira fase. Eu explodi como um fogos de artifício, fiquei exageradamente feliz, me emocionei! Então comecei a ligar para os meus amigos, e a partir daí, minha alegria foi se tranformando em desapontamento. "Sim, eu passei, mas e meus amigos?" Eu estava sem chão. Mas lembrei que ainda havia minha ultima esperança lá dos altos. O tempo passou, coloquei a cabeça no lugar, meu sucesso ainda não era certo, ainda tinha uma etapa do processo de seleção: a entrevista.
Mais ou menos um mês depois, fui para a capital fazer uma entrevista com a psicóloga. Não tinha ideia do que esperar de lá, e acho que não tinha ideia mesmo quando saí de lá. Foi como um balde de água fria. Naquele momento, abri os meus olhos para a realidade, o óbvio, e não imaginando como seria a escola. Percebi que vai ser difícil... Mas não havia mais nada a fazer. Tinha que esperar até o dia 23 de Novembro para saber o que seria do meu futuro escolar (ou meu futuro de vida inteira).
Entre esses fatos, minha vida espiritual estava em cacos. Sinceramente, não achava solução. Eu estava desesperado internamente, me perguntando: "Cadê o meu Deus, aquele que eu conheci, pelo qual eu me apaixonei?" Eu não sabia a resposta. Não o escutava! Então minha vida começou a desacelerar, tive que repensar os fatos, repensar minhas atitudes. E acho que foi a pior coisa que eu fiz. Minha vida espiritual naquele momento estava tampada pelos "por quês" que eu impunha. Mas eles me ajudaram, me descomplicaram. Eles que sempre estavam lá pra qualquer coisa: meus amigos. Foi aí que disse adeus aos meus estúpidos questionamentos.
Eu me lembro muito bem. Era uma segunda feira. Dia 22 de Novembro. Eu procurava mais que tudo manter a mente longe do resultado final. Minha mãe chegou do serviço e me perguntou se já havia saído o resultado. Eu, como tantas outras vezes, disse: "É, só dia 23.. esqueceu?" Mas ela insistiu em apenas conferir. Eu estava com tanta certeza que o resultado sairia no dia seguinte que nem fiz questão de ligar o computador. Olhei o resultado ali mesmo, jogado no sofá, pelo celular. Quando a página carregou, eu congelei. De fato, o resultado estava ali, a um click de distância.
Eu passei .
Foi uma estérica mistura de sentimentos guardados por mais de um mês no fundo do meu consciente, obrigados pela minha mente a se manterem em silêncio, mas naquela hora, eles vieram à tona. Minha mãe saiu correndo, gritando, achei que ela não estava bem mesmo, ligou para todas as amigas, esgoelando: "AAAAAAH, O LUCAS PASSOU!". Eu estava ali ainda, no sofá, processando a informação. Era muito pra minha cabeça. Demais. Até hoje!
As aulas não haviam acabado ainda. Depois do resultado eu tinha uma visão diferente da minha turma. Eu os olhava com tanto carinho. Foram eles que viveram comigo o ano interio, foram eles que me odiaram, me amaram, ou só cumprimentavam. Foram eles que começaram e terminaram o ano comigo. Algum deles, a mais de 10 anos. Outros, a apenas 6 meses. Mas sem excessão, eu considero cada um deles, guardados no meu coração. A despedida do meu "recinto" foi algo extremamente difícil, dizer adeus aos meus cinco grudes partiu meu coração. Mesmo! Pode até ser que eu os veja de vez em quando, mas não seria a mesma coisa. Enfim, foi como dar adeus a uma necessidade, à minha necessidade! Desejo o melhor para cada um deles, sei que dali sairão excelentes profissionais, tenho orgulho deles. Obrigado turma, por tudo!
Férias chegou, ufa! Até que enfim poderia parar com aquela rotina de levantar cedo, mesmo que por um tempo. Acordo tarde, almoço tarde, durmo tarde. A melhor coisa até agora é não se mexer, não muito. Quero curtir minhas férias! Hoje, está complicado, terminar um ano tão diferente, para começar outro tão incerto. Foram poucas postagens, mas cada uma, foi no intervalo de cada momento. Este, no intervalo de duas décadas, ou de dois destinos (um já vivido, e o outro completamente inexplorado). Preciso curtir ainda muita coisa. Curtir meus amigos que se emocionam, e minha família (meu tesouro). Adeus 2010, que venha 2011.
Abraço - LG
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