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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Não-sabe-onde


     Era noite. Era silêncio. Um silêncio que dentro daquele carro se tornava o mais alto possível. As luzes da ponte que passava naquele momento não eram pontos luminosos em altos mastros de ferro, mas somente borrões chamejados das lâmpadas. Era uma cortina preta com desfocos de ouro bizantino enfileirados sobre um longo pavimento de asfalto. Àquela hora, poucos ou quase nenhum carro passava sobre. Tudo indicava que era algo intimamente ligado a ela, todos os murmúrios e fungados. Seus cabelos curtos, avermelhados e de caráter rebelde não tiravam a feminilidade de seu rosto, porém a pele molhada, lacrimejada e cansada sobre o mais perfeito dos pêssegos somente sustentava a teoria da fraqueza feminina. As lágrimas atuavam profissionalmente como em um filme dramático. Uma a uma escorriam, escorregavam. E quando pesava todo o derramamento, suas mãos trêmulas enxugavam-nas, ou tentava o ato. Cena desfocada, sentimento desfocado, rumo desfocado. Seus óculos arredondados não podiam ver seu destino, seu ponto de chegada. Seus pensamentos muito menos. Os pensamentos estavam sendo mutilados pelos barulhos dos tiros que atravessara o peito do homem que amava. Vida planejada, sonhos traçados e tudo já marcado ao lado dele. Mas a faca afiada de uma história curta separara-os. Ela só teve tempo de correr para o fusca azul-desbotado dele e partir logo dali antes que o próximo alvo de bala fosse o peito já perfurado de uma amante. Partir pra não-sabe-onde. A ponte passou, o soluço passou, e a escuridão já passava. O espetáculo do sol é que vinha. Céu azul saturado, azul borrado, azul sonolento. E logo clareando, clareando, clareando, até que a cicatriz solar se formasse. Ela ainda estava ali, dentro daquele carro, na mesma posição que passou a madrugada inteira: um braço apoiado na janela e apoiando a cabeça, com seus dedos acolchoados pelos cabeços macios, e o outro estendido com o controle do volante. Precisava sair, parar em algum lugar para pegar um ar. Viu que chegara ao litoral. Estacionou o fusca, tirou as sandálias e em passos lentos caminhou até final do longo píer. Sentada, abraçada pelo sol e pelo silêncio fiel, ela ali estava. Não via mais magia em nada, perdera o apetite e o interesse pela beleza da culinária, não tinha vontade de fotos, não tinha mais vontade de vontades. Olhos inchados, piscadas lentas, e agora, tranquilidade. Só isso.

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